A Copa que o Brasil não quis (03/03)

Extraído de: Super Esportes   Março 03, 2010

Para conseguir ser a sede da Copa do Mundo de 2014, o Brasil contou com total apoio do governo federal. Situação bem diferente de 1983, quando a CBF se candidatou a promover a competição de três anos depois. "Área econômica veta Copa-86 no Brasil", anunciou com destaque o Estado de Minas, em 6 de março.

Desde maio de 1982, diante das primeiras informações de que a Colômbia desistiria de ser a sede de 1986, a CBF vinha trabalhando para trazer a competição para o Brasil. Quando a desistência dos colombianos se confirmou, sob a alegação de que não teriam condições de cumprir as exigências do Caderno de Encargos da Fifa, devido aos altos custos, a Fifa abriu inscrições para os demais países das Américas.

Inicialmente, quatro candidatos manifestaram interesse e tinham prazo até 11 de março para apresentar o aval dos respectivos governos. Estados Unidos, México e Canadá logo cumpriram a exigência, mas o governo brasileiro não demonstrou a mesma disposição. "Se depender de Delfim Netto (ministro do Planejamento), Ernane Galvêas (ministro da Fazenda) e Carlos Langoni (presidente do Banco Central), a Copa do Mundo de 1986 não será realizada no Brasil. (…) Uma fonte do Palácio do Planalto informou que esse trio não quer nem ouvir falar nisso ", divulgou o EM, dia 6.

Para tentar sensibilizar a área econômica do governo, o presidente da CBF, Giulite Coutinho, havia apresentado detalhado estudo de viabilidade financeira, ressaltando que o Brasil teria lucro de milhares de dólares com o evento. No início de 1983, o dirigente encaminhou todos os pareceres à Presidência da República e, nos 15 dias anteriores ao término do prazo, a entidade desencadeou grande campanha para convencer Delfim e Galvêas.

Giulite também esteve na Câmara, onde fez exposição detalhada do projeto para cerca de 150 deputados federais, garantindo que a Copa significaria lucro notável para o país. Mais de 100 parlamentares assinaram manifesto apoiando a ideia, na cartada final da CBF para sensibilizar o presidente da República, João Figueiredo.

Desafeto de Giulite, o presidente da Fifa, João Havelange, preferiu não se pronunciar publicamente sobre o tema. Em audiência com Figueiredo no Palácio do Planalto, em 3 de março, ele nem tocou no assunto. Apenas repetiu categoricamente que o aval do governo era condição básica: "Este é um problema que diz respeito apenas ao governo brasileiro e à CBF. Como torcedor, gostaria que a Copa fosse no Brasil. Mas isso quem decide é o Comitê."

O anúncio oficial do governo, na tarde do dia 10, provocou grande frustração na CBF, que acreditava ter o Brasil plenas condições de promover o Mundial a custo baixo, por entender que o país contava com toda a estrutura para isso. Segundo Carlos Átila, porta-voz da presidência, a negativa brasileira levou em conta, especialmente, o fator econômico. "A crise financeira não permitia o acréscimo de nenhum encargo financeiro para o governo." A decisão somente seria favorável se Figueiredo estivesse absolutamente convencido de que a Copa daria lucro, justificou Átila.

Com o Brasil fora do páreo, a disputa ficou entre Estados Unidos, México e Canadá. O que pesava contra a campanha mexicana era a questão da altitude. Já em 1970, os europeus a haviam considerado como responsável pela queda de produção de suas seleções. Os canadenses, que haviam recebido os Jogos Olímpicos de 1976 em Montreal, apostavam que teriam a maioria dos votos, pelo clima ameno e as instalações esportivas do país. Os Estados Unidos, que organizaram a Olimpíada de 1984, em Los Angeles, eram apontados pelos observadores como os favoritos.

Mas em 20 de maio, reunido em Estocolmo, o Comitê Executivo da Fifa escolheu os mexicanos. Para muitos, pesou a força de Emilio Azcárraga, o magnata das Comunicações do país, proprietário da Rede Televisa, do Estádio Azteca e do América, principal clube local, além de forte aliado de Havelange.

Na competição, o Brasil, que estreou contra a Espanha, terminou em quinto lugar. A Argentina, comandada por Maradona, foi a campeã.




 

 
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